MÚSICA COMO ÁGUA | LABORATÓRIO POP


MÚSICA

09.09.2010 | 18:29

MÚSICA COMO ÁGUA

Ricardo Schott



"Nunca me arrependi de dar minhas músicas de graça", garante Leoni, que tem posto em seu site todas as músicas novas que vem fazendo e gravando, para download gratuito. E foi graças a isso que ele consegiu algo inédito: lançar um CD e DVD ao vivo, de um show que divulgava um disco que, na prática, não existia. O independente A noite perfeita - ao vivo, gravado em parceria com o Canal Brasil, chega em breve às lojas e traz o registro de um espetáculo gravado no Circo Voador (Rio) em 18 de junho, misturando músicas pedidas pelo publico em seu site com as canções que ele vem oferecendo em versões de estúdio, e que já perfazem 10 singles. "Não era algo que estava nos meus planos, mas a parceria com o canal me permitiu isso", diz o cantor ao LABORATÓRIO POP, que acrescentou novidades como Igual a qualquer um (canção feita em parceria com um fã, e que venceu o segundo concurso de composição promovido por ele), uma reinterpretação de Canção de despedida (do grupo que manteve ao sair do Kid Abelha, em 1985, Heróis da Resistência) e, como bônus de estúdio, a música-tema do filme Muita calma nessa hora, de Felipe Joffily.

A resposta de Leoni para a atual situação do meio fonográfico é valorizar a música digital e não brigar com os downloads - embora revele desacreditar um pouco da venda de MP3 pela internet, a qual vem aderindo em algumas empreitadas. Sua experiência com o mundo digital, que lhe valeu uma reconstrução de carreira, Leoni pôs num e-book - justamente intitulado Manual de sobrevivência no mundo digital (baixe aqui) - e no blog Música Líquida, que divide com o jornalista Marcelo Pereira. São meios para se tentar enfrentar e entender as mudanças no mercado num momento em que o gênio das grandes vendagens - ao menos na música pop - não parece querer voltar para a garrafa.

LABORATÓRIO POP: Afinal, como você vê as propostas que foram feitas para a reforma dos direitos autorais? Como você avalia o fato de não ter sido apresentado nada de muito relevante com relação aos downloads?

Leoni: Acho que muito pouca coisa relevante foi proposta por falta de informação. A indústria empurrou através da mídia a sua versão da história de que os artistas estão sendo roubados, de que eles estariam nos defendendo. O que não é verdade, estão defendendo um modelo de negócio - expressão enjoada de tão usada hoje em dia - que caducou. O medo tomou conta de muitos compositores mais antigos. Por outro lado, os novos não estão nem aí para a lei, fazem tudo informalmente e querem mais é que "tudo se exploda". Viraram duas torcidas de time de futebol e a paixão tomou o lugar da razão. Agora começam a surgir propostas mais razoáveis, mas é muito difícil saber em cima de que realidade legislar, já que tudo mudou muito e não vai mais parar de mudar. Tentar proteger o download, quando já se imagina que isso será desnecessário no futuro tal a facilidade de acesso online a qualquer conteúdo, pode ser um desperdício de negociação.

No último dia da reforma da lei de direitos autorais, na semana passada, você passou um abaixo-assinado entre artistas e jornalistas, falando a respeito da proposta de pagamento de R$ 3 para poder baixar música para usos não-comerciais. Houve muita adesão?

Sempre existe muita desconfiança. Primeiro, é difícil entender o conceito de blanket-licence. Essa história de pagar pelo acesso e não pelo conteúdo ainda causa muito estranhamento. Depois existem questões referentes ao Brasil: será que o dinheiro vai mesmo para os criadores ou vamos pagar mais por nada? Quem vai distribuir e como? Algumas pessoas ligadas à música livre não querem pagar, nem receber, nada. É uma minoria, mas é barulhenta. Que eu tenha visto, o Ritchie, o Frejat, o Billy Forghieri (Blitz), o Thedy Corrêa (Nenhum de Nós) e o Roger Moreira (Ultraje A Rigor) assinaram. Engraçado serem todos da minha geração. Não vi nenhum artista consagrado dos anos 90 ou 2000. Deve haver uma penca de artistas novos cujos nomes eu não conheço.

Você vem fazendo o blog Musica Líquida e escreveu recentemente um ebook, além de já ter lançado um livro em 1995, Letra, música e outras conversas (em que entrevistava colegas de profissão como Renato Russo, Marina Lima, Lobão e Samuel Rosa). Como é poder enxergar a música por um outro lado?

Eu sempre gostei de ler sobre música, não só de fazer. É natural que numa época em que existem tantas ferramentas de comunicação eu as aproveitasse para expressar minhas opiniões e pontos de vista a respeito de um assunto que me encanta tanto. Minha abordagem é menos jornalística e mais pessoal. No fundo penso apenas em trocar experiências. Como isso é coisa que não me falta - quase 30 anos de carreira - acabo escrevendo muito.

Como surgiu a ideia de fazer um blog de música digital?

Como eu tinha que tocar a minha carreira num mundo destruído comecei a ler tudo que saía no exterior a respeito das novas práticas do universo musical. Achei muita coisa interessante, mas não havia nada semelhante em português. Nem os blogueiros nem a imprensa brasileira tocavam nesse assunto. Então resolvi criar o Música Líquida para divulgar o que eu vinha lendo e discutindo com o Marcelo Pereira - meu parceiro no blog - e para discutir as coisas que eu vinha implementando experimentalmente.

Como você viu a receptividade ao seu e-book? Muitas pessoas escreveram propondo retificações e acrescentando coisas?

A receptividade foi ótima. Tenho recebido muitos e-mails de bandas agradecendo as dicas do Manual - que vai virar livro físico até o fim do ano. Tenho notícias de que ele tem sido usado até em faculdades como referência de marketing cultural etc. Não tive muita crítica, mas muita gente quis contar experiências semelhantes que vinha realizando.

Você costuma debater bastante a Proposta de Emenda Constitucional 98/07 (que propõe a imunidade tributária para gravações de obras feitas por artistas ou compositores brasileiros) e chegou a afirmar que, por sempre aparecer isoladamente falando disso, parecia até que ela era a "PEC do Leoni". Tem sentido que os artistas, compositores, músicos etc já debatem mais sobre o assunto?

De alguns meses para cá, com a consulta pública do Ministério da Cultura sobre as alterações da Lei de Direitos Autorais, senti uma vontade maior da classe em se informar e se manifestar. É pouco, mas é um alívio perceber que os artistas estão acordando de um tempo em que podiam deixar tudo nas mãos de gravadoras ou empresários. Os dias hoje são de mão na massa. A PEC ficou paralisada por conta da oposição do governo do Amazonas, que a vê como inimiga da Zona Franca. O que se acha é que será mais fácil - já existe uma mobilização parlamentar para isso - conseguir transformar nossas aspirações em Medida Provisória. Sendo aprovada, seus efeitos serão imediatos. Isso pode acontecer ainda esse ano.

O produtor Marco Mazzola, criador de um prêmio de música digital que contempla a venda de downloads legais, afirmou ao LABORATÓRIO POP que dar música de graça "é um tiro no próprio pé" e que "o Leoni vai pensar duas vezes, depois do prêmio, antes de colocar as músicas dele de graça". Em algum momento você chegou a se arrepender de colocar músicas como A noite perfeita 100% disponíveis para todo mundo? Quais foram as maiores vantagens que você teve com essa mudança de status e com o maior contato com os fãs?

Não me arrependo mesmo. Os resultados são visíveis. Todas as canções que fazem parte do novo DVD foram dadas no site em sua versão de estúdio. De 2008 até este ano foram 10 singles. Na hora da gravação no Circo, que tinha gente de Manaus, Salvador, interior de São Paulo etc, dava para ouvir o coro entusiasmado nas músicas "inéditas". Se eu não as tivesse dado, elas seriam desconhecidas, dificilmente eu teria um público tão grande e tão fiel. O pior para o artista não é ser roubado pelo pirata, é ser anônimo. Não dar suas canções é tapar o sol com a peneira. Todas as canções estão de graça na rede para quem quiser. Você queira ou não. Acho infinitamente melhor que eu dê as minhas canções com uma boa qualidade, foto, textos, letra, ficha técnica etc. Primeiro porque garanto a qualidade dos arquivos, depois porque meus fãs ficam agradecidos por não serem tratados como criminosos.

Por outro lado, depois de muito negociar, consegui colocar o single da peça Alucinadas - que conta com a participação do Herbert Vianna, do Frejat e do Leo Jaime - para venda em MP3, ou seja, sem DRM, abaixo de R$ 1 e os resultados têm sido pífios. O que o público diz? É complicado de pagar, tem de graça na rede, prefiro comprar num CD etc. Portanto, acho que esse modelo de compra avulsa de música não vai pagar nem o cafezinho das gravadoras. Acho muito mais viável o modelo proposto pala petição da USP de legalização do compartilhamento de arquivos mediante uma taxa mínima. O problema do Mazzola é que ele, como todo mundo da velha guarda, fica tentando recuperar um negócio que não existe mais. Agora, se eles conseguirem colocar o gênio de volta dentro da garrafa, posso voltar a pensar no assunto. Mas eu duvido muito.

O que um artista precisa saber hoje ao começar uma carreira na música pop? Que conhecimentos ele precisa ter, o que ele precisa estudar além de seu próprio instrumento?

Precisa entender que vai levar muito tempo para estabelecer a carreira e que pode não dar nada certo - considerando "dar certo" como conseguir se manter apenas com música. Tem que estar preparado para trabalhar bastante através da internet e tem que ter um show matador. A concorrência está enorme e a atenção do público cada vez mais dispersa. É um mundo extremamente democrático e, por isso, democraticamente difícil. A música tem que ser muito boa e pessoal para que um artista consiga se destacar da massa caótica de informação que as pessoas encontram na internet.

Tem algum momento de sua carreira (seja solo, seja com o Kid Abelha) que você, quando pensa, dá uma risada e fala  logo: "Meu Deus, mas como eu era ingênuo..."

Inúmeros. A primeira armadilha que se cai - e é quase impossível não cair nela - é a de que o sucesso é um caminho que você descobriu e que não vai se fechar nunca. Não para você. Toda nova estrela acha que os que caíram pelo caminho não sabiam o que ela sabe. Isso aconteceu comigo. Especialmente depois que eu saí do Kid Abelha e também fiz sucesso com os Heróis da Resistência, além de ter composto canções de sucesso para o Cazuza e o Leo Jaime. Eu tinha a fórmula! O problema é que eu não tinha, mas só fui descobrir no segundo disco dos Heróis.

Como vê esse retorno do Kid Abelha? Você rompeu com a banda em 1986, mas continuou fazendo uma ou outra colaboração com George Israel. Existe a possibilidade de fazer algo com o trio restante no palco ou em disco?

Uma hora o público ia exigir a volta do Kid. É uma carreira vitoriosa que não deve mesmo ser abandonada. Quanto a algum projeto conjunto, nunca falamos disso. Acho que poderia acontecer de forma excepcional já que nossas carreiras estão bem estabelecidas. Mas seria divertido. Já com o George tenho feito muitas parcerias e às vezes participamos um do show do outro.

Pertence aos anais do rock nacional um desentendimento seu com Herbert Vianna nos anos 80, citado em livros etc. Hoje, vocês são amigos e cantaram juntos em Canção pra você voltar (parceria dos dois lançada no CD Audiorretrato, de Leoni, lançado em 2003). Você e a Paula Toller também tiveram uma briga que levou à sua saída da banda. Como é o relacionamento de vocês hoje?

Essas coisas do milênio passado tendem a fugir da minha memória e por isso são facilmente resolvidas. Vinte e quatro anos curam qualquer ferida. Herbert hoje é quase um irmão, fizemos muitas coisas juntos e pretendemos fazer ainda mais.

Fala-se muito que o músico, hoje, tem que ser um pouco empresário. Isso não atrapalha o lado artístico?

Essa é uma mistificação. Tivemos grandes poetas, nossos maiores, que tinham empregos regulares para poderem escrever. Quase todos os escritores, uma parte considerável dos atores e diversos outros tipos de artistas têm que encarar o mundo real para se sustentarem. Philip Glass dirigia táxis em New York para não ter que fazer o que não gostava musicalmente. Mas na indústria da música havia tanto dinheiro que podíamos nos comportar como crianças mimadas que só fazem o que lhes dá prazer. Esses tempos acabaram, mas o talento não precisa acabar junto.

Foto: Divulgação

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Postado Por GUGA BRANDãO

10.09.2010 | 10:52

sensatez impressionante...