08.03.2011 | 18:38
“QUERO ACABAR COM OS PRECONCEITOS”
Ricardo Schott, do Recife
O paulistano Marcelo Jeneci, 28, toca sanfona e tem um nome que remete imediatamente a um clima musical agreste, mas não é forrozeiro - o instrumento entra em seu som em contextos absolutamente diferentes. Faz uma musica com letras românticas e de fácil assimilação, mas não é exatamente um compositor 100% popular - a ponto de valorizar o barulho e o som das guitarras em algumas canções de seu debute Feito para acabar (Slap/Som Livre). Cresceu cercado de informações populares, pela TV e pelo rádio, e crê que o melhor para seu som foi justamente nao ter optado por um lançamento independente - ainda que sua estreia tenha sido bancada pelo patrocínio da Natura.
Presente em outros projetos recentes da música pop atual, como o Cidadão Instigado e o vindouro segundo disco solo de Marcelo Camelo, Toque dela, do qual participou, Jeneci começou a carreira aos 17 anos, na banda do cantor Chico César - até então, como afirma, levava uma vida "pacata", voltada à música instrumental, na Zona Leste de São Paulo. Suas canções ganharam elogios de parceiros como Vanessa da Mata (com quem fez o hit Amado) e Arnaldo Antunes (parceiro em muitas músicas, como Quarto de dormir), mas já chegaram às rádios na voz do sertanejo Leonardo. "Eu estou aqui para acabar com os preconceitos", afirma Jeneci, nos bastidores do festival recifense Rec Beat, onde se apresentou nesta segunda (7) e tocou músicas como Copo d´água e Dar-te-ei, logo após o show de Odair José - um ídolo para Jeneci, que chegou a dedicar músicas a ele no palco.
LABORATÓRIO POP: Você faz parte de uma geração de novos músicos paulistanos que tem sido muito elogiada pela crítica. O que você e esses artistas têm a oferecer de novo?
Marcelo Jeneci: Acho que, como todas as gerações que vão chegando e assumindo seus lugares, eu faço parte de uma geração que tem algo para dizer e que tem tido um campo generoso de trabalho. Uma coisa que interliga vários artistas da minha geração é a necessidade de trazer alguma coisa leve, sincera e bela, e que não dependa de nenhum mercado fonográfico ou de algo muito polido e muito plastificado. Estamos tendo a chance de fazer com muita liberdade o que mais acreditamos. Acho que se assemelha com a geração do final dos anos 60 e começo dos anos 70.
Mas você acredita num boom de grandes artistas como o daquele período? Para você essa galera nova vai ficar?
Acho que as porteiras se abriram. Não sei se as daquela época estavam fechadas, acho que não. Cada geração tem seu papel imortante. Agora tem muita gente fazendo coisas diferentes ao mesmo tempo. Não é uma questão da minha geração, é uma necessidade que o tempo oferece. Do mesmo jeito que apareceu nos anos 70/80 uma frota de ônibus com vários lugares para serem ocupados, em 2010 essa situação se repete.
Você teve uma música que foi ao mesmo tempo gravada pelo Arnaldo Antunes e pelo Leonardo (Longe)...
Foi. É uma parceria minha com Arnaldo e com Betão Aguiar, que entrou numa novela da Globo (Paraíso). Não tocou muito, mas tocou no meu coração o fato de uma música minha, por mais que seja uma parceria, ser cantada por um cara que eu ouvia muito no rádio...
Ter música em novela era um sonho seu?
Era uma coisa que eu acreditava que poderia acontecer naturalmente. Sou filho dessa cultura de massa, de assistir à TV aberta, de mais ver filme do que ler, de assistir novela, ouvir rádio... Depois de dez anos tocando como instrumentista em outros projetos, quis botar para fora uma música minha, com letra minha. Comecei a achar natural que viessem com esse filtro, que absorvi nos meus 28 anos. Sempre acreditei que fosse natural acontecer dessa forma.
Longe pegou dois lados bem diferentes: foi gravada pelo Arnaldo e por um artista sertanejo...
Esse preconceito com a música popular está cada vez menor, ainda mais depois de todo o trabalho do tropicalismo... Aqui mesmo no Rec Beat o Odair José toca para 30 mil pessoas, uma geração que acaba valorizando o que ele fez na década passada. Acho até que ele pode falar mais disso. Eu estou aqui para acabar com esse preconceito.
Seu disco saiu pela Som Livre com patrocínio da Natura. Como entraram esses dois lados na produção do disco?
Eu me inscrevi no Natura Musical em 2009 e fui selecionado. Patrocinaram a gravação do meu disco. Só que na hora de pensar em como lançar... Eu sempre acreditei numa força imediata das canções, pelo fato de elas serem muito comunicativas. Daí não quis lançar independente. Não quis lançar logo que ele acabou. Ele ficou pronto em abril e lancei só em dezembro. Daí apareceu o Som Livre Apresenta. Foi uma triangulação, porque cresci absorvendo muita coisa que eles (Som Livre, Globo) colocaram no mundo. Fui conhecendo outros mundos, conhecendo muita gente bacana, Arnaldo, Luiz Tatit. Conheci outros tipos de cultura, de camadas mais profundas. A música que eu faço carrega a união desse mundo mais popular com esse outro mundo e só poderia ter sido lançada por uma grande gravadora. Eu quis que isso acontecesse.
Como era sua vida musical antes do Chico César?
Eu tocava piano e sanfona nas bandas de outros artistas e não compunha nada. Estava mais ligado à música instrumental. Isso lá pelos 15, 17 anos. Fui percebendo que me colocava de forma mais autoral como instrumentista. O universo da canção foi me chamando. Passei a ter necessidade de dizer algo, de compor música com letra...
Mas o que você sentia que queria dizer?
O principal era fazer uma música que poderia ser consumida pela grande massa e pela classe média brasileira. Precisava dizer não às firulas e às coisas cerebrais. Olhava para o que estava rolando e para o que estava dentro de mim, e sentia que tinha algo para sair que juntaria essas coisas. Essas questões só foram respondidas quando saiu o disco.
Mas ao mesmo tempo você tem em Feito para acabar coisas mais cerebrais e barulhentas, lembrando o próprio Cidadão Instigado e até Mutantes. Como você equilibra isso no seu som?
É, o Cidadão me instigou mais, eu diria. Mas encontrei no Catatau uma referência que eu já tinha da infância, que eram as músicas românticas da década de 70, e isso se juntou ao som psicodélico que os Mutantes faziam. Isso me ajudou a ter mais contato e mais experiência com um som mais visceral.
E como foi trabalhar com Marcelo Camelo no disco solo dele que está para sair?
Cara, foi maravilhoso. Na real, eu comecei a compor as minhas músicas depois que fiquei apaixonado pelo trabalho de Los Hermanos. Foi inacreditável gravar no disco dele, e ele ainda dividiu palco comigo no meu show de lançamento. Quando acabaram os shows em SP, eu fiquei chorando em casa, sem acreditar que aquilo estava acontecendo.
Foto: Divulgação.
Foto: Divulgação/Caroline Bittencourt
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