01.04.2011 | 17:56
"SOU METALEIRO!"
Ricardo Schott
Max Cavalera, ex-frontman do Sepultura, hoje não é apenas um fã inveterado de metal. O criador de discos animais como Chaos AD (1993) já gravou com Carlinhos Brown, é fã de Chico Science e deu emprego ao guitarrista da Nação Zumbi Lucio Maia em sua banda Soulfly. Mas é em seu mais recente projeto, o Cavalera Conspiracy, que se encontra consigo próprio e com seu passado. Formado por ele ao lado de seu irmão Iggor Cavalera (bateria) e dos amigos Mark Rizzo (guitarra) e Joe Duplantier (baixo), o grupo, que acaba de lançar o segundo disco, Blunt force trauma, obriga o ex-frontman do Sepultura a largar todas as influências que recebeu de outros estilos musicais ao longo da vida e se entregar a um som que passa por hardcore, thrash metal e outros estilos brutos, rústicos e sistemáticos.
Honrando o clima casca-grossa da banda, o disco foi gravado em apenas duas semanas - gerando em apenas um take canções violentas como Rasputin, Warlord, Torture, Thrasher, I speak hate e outras. O clima lembra muito o espírito juvenil da primeira fase do Sepultura, embora, em papo com o LABORATÓRIO POP, Max garanta não ter ouvido nenhum dos discos da banda pós-Roots (1996), seu último com o grupo. "Para mim, acabou aí mesmo", afirma.
LABORATÓRIO POP: Vocês acabaram de abrir para o Iron Maiden em São Paulo. Qual a primeira lembrança que tem da banda?
Max Cavalera: A primeira coisa que eu lembro é como foi quando eu e Iggor descobrimos o Iron. A gente comprou o Killers (segundo disco da banda, de 1981) por causa da capa, voltamos para casa e ficamos ouvindo. Ficamos fanáticos na hora mesmo, foi uma coisa assim, super-rápida, de virar mesmo fã da banda de uma hora para a outra. Tinha umas lojas que vendiam camisas do Iron, mas só tinha o tamanho grande. A gente pediu assim mesmo, queríamos usar de qualquer jeito. A gente botava as camisas mas elas iam até o joelho e eu e o Igor andávamos em BH com elas assim mesmo. E todo mundo ficava olhando, tipo "olha lá os caras, não é possível, parece que estão de pijama!" A gente nem se tocava, para a gente era a camisa do Iron. Isso é o que estava valendo, estamos representando o Iron Maiden.
Teve alguma banda que te deixou nervoso quando você abriu o show dela?
Teve… O Soulfly fez uma turnê com o Slayer, foi bem legal. E era uma coisa que eu estava meio com medo, porque os caras têm um público bem fanático. E tinha tido uma guerra do Slayer com o Sepultura, que teve bastante coisa na imprensa… Mas foi do caralho, os fãs deles adoraram o Soulfly, eu me dei super bem com todos eles. Tanto que gravei Terrorist com Tom Araya (cantor do Slayer) depois.
Mas teve mesmo essa briga com o Sepultura? Ou foi só fofoca?
Não… O que aconteceu foi que teve um vídeo do Kerry King (guitarrista do Slayer) falando mal da gente. E esse vídeo, acabou que uc ara gravou numa fita VHS e mandou para a gente. Acho que foi num canal francês. Ele chamando a gente de "plágio de Slayer", dizendo "suck my dick"… Sentimos que era inveja deles, que estávamos deixando os caras nervosos. Para ele fazer uma entrevista assim, acho que ele devia estar sentindo que alguém estava ameaçando o trono dele. Falamos com eles que não achamos legal o jeito como eles falaram da gente, que éramos fás do Slayer. Mas pegou um pouco na mídia. Na Europa teve revista que botou foto minha e do Tom Araya cortada no meio, tipo "guerra entre as facções metálicas!".
Blunt force trauma foi gravado bem rápido...
Tivemos uma gravação em tempo recorde de bateria, acho que foi em no máximo quatro dias. Nesse tempo o Iggor gravou a bateria do CD inteiro, acho que foi uma coisa que a gente nunca fez até hoje, de tão rápida. Mas foi uma coisa que acabou rolando naturalmente, e que ficou legal, até para o jeito que o CD foi feito. Ele foi feito num lado que parece mais bandas como SOD, uma coisa mais espontânea, mais rápida. O primeiro take de cada música foi o que a gente acabou gostando. Acabamos nem tentando fazer outros takes para a mesma música para tentar achar algo diferente. No momento em que tava a primeira gravação boa já dá música, já passávamos para a próxima. Quando vimos, o CD estava pronto em tempo recorde. Acho que em duas semanas ele estava gravado. Mas ficou legal por isso.
Como era gravar na época em que eram banda independente? Era rápido também?
Naquela época tinha pouco tempo porque não tínhamos dinheiro, né? Era deixar o estúdio marcado e… Por exemplo, o Bestial devastations (EP de estreia da banda, de 1985) foi num fim de semana. Era pegar o equipamento na sexta, começar a gravar no sábado e terminar no domingo! Gravação de fim de semana mesmo. Mas é legal, tem uma coisa legal de gravar rápido. É aquela coisa da pressão, e tem também muita coisa que quando você grava rápido é que fica legal. Fica aquela coisa mais punk mesmo.
Vocês gravaram Electric funeral, do Black Sabbath, para encerrar o disco novo. É uma música que vocês já tocavam em shows?
A gente fazia uns pedacinhos dessa música na época do Sepultura. Tocávamos uns trechinhos dela. Mas ela surgiu em nosso repertório a partir de um convite (da revista Metal Hammer, que preparava um CD de covers do BS) para reler uma música deles. Mandaram a lista de músicas para a gente ver e a maioria era do período do Ozzy, do Paranoid, do Master of reality, Volume 4. Achei que Electric funeral poderia ficar bem legal. A gente botou um pedaço bem rápido no meio dela, para ficar mais original. Botamos uma guitarra direto com um wah wah para ficar bem legal.
A volta do Sepultura com a formação clássica parece inviável. Já pensou em fazer um show com o repertório de um disco inteiro da sua fase na banda?
Não, esse lance até muita banda está fazendo… Virou meio moda. Eu acabo fazendo as turnês do jeito que eu faço mesmo, misturando as músicas de todos os discos.
E como é manter duas bandas, Cavalera Conspiracy e Soulfly, numa época em que se fala tanto do fim do CD?
Natural. Eu convivo com as duas bandas, escrevo música para as duas. E elas são bem diferentes: o Cavalera é mais metal mais direto, mais agressivo, e ao vivo é mais animal, uma música atrás da outra. E acho legal pra caramba que tenha esse lado mais animal da época do death metal do Sepultura, de quando a gente era mais radical. Quando a gente faz as músicas do CD, não tem influência de hip hop nem e reggae. É thrash metal, hardcore, 100% metal. Eu curto fazer isso. O Soulfly é mais misturado, tem um lado mais world music e pega som de outros cantos do mundo.
E o MixHell, projeto do seu irmão Iggor, mais voltado para sons eletrônicos. Você curte?
Na real, não sou muito ligado nesse tipo de música, não conheço muito, não. Há pouco tempo o Iggor me mostrou algumas bandas que achei legais. Uma delas foi o Justice. Achei bom, mas não é minha praia, não. Eu sou metaleiro.
Você ainda se interessa em saber o que acontece com o Sepultura? Acompanha a banda?
Não. Desde que saí, nunca ouvi nenhum disco. Para mim é uma coisa meio delicada, eu era tão apegado com o Sepultura desde o começo, desde quando comecei a banda em BH… Eu escrevi num caderno de moleque - coisa de adolescente - que era só eu e o Iggor e o resto eram pessoas imaginárias. Para mim fica difícil imaginar que a banda continua. A coisa acabou para mim no Roots mesmo.
É como se a formação inicial nem existisse mais, porque era só você e o Iggor...
E nós continuamos aqui, no Cavalera, carregando o espírito que a gente tinha nos anos 80 e 90.
Como é o Max Cavalera pai de família? Como é o papo que você tem com seus filhos, que já são adolescentes?
O Igor tem 15 anos e o Zyon tem 18 e eles têm uma banda com uns três caras da mesma idade deles, o Mold Breaker. Os caras estão começando a fazer show. Sempre falo que tem que fazer flyer, demo, sair atrás. As coisas não caem do céu. E eles curtem o que eu faço. Sobre lance de drogas e álcool, tenho afastá-los e mostrar que só a música é necessária. Que se só tiver a música não precisa de mais nada.
Foto: Divulgação
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