30.12.2010 | 09:00
RETROSPECTIVA 2010
Ricardo Schott
O velho clichê do rock rezava que Elvis Presley, morto em 1977, "não morreu". O mesmo se aplica a Renato Russo. Quatorze anos após sua morte, o líder da Legião Urbana ainda vive nas entrevistas que são feitas a cada ano com os remanescentes Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, e nos relançamentos que são arremessados nas lojas com a obra do grupo. Desta vez, as reedições ganharam ares quase beatlemaníacos, e se tornaram um dos maiores sucessos de um ano regado a recordações do mercado fonográfico. Assim como há um ano a EMI já havia empacotado a obra dos quatro de Liverpool, dessa vez os discos de estúdio da Legião saíram numa caixa, com fotos novas e novos textos contando detalhes das gravações. E ainda tiveram as reedições em vinil de toda a obra de Renato, Dado e Bonfá (e Renato Rocha). O sucesso acabou sendo imediato, com previsão de 40 mil unidades vendidas e tiragem única dos vinis já esgotada.
A Legião não é exatamente um fantasma na vida de Dado nem de Bonfá – se for, é um fantasminha camarada, que enche a dupla remanescente de alegria. "Foi a Legião que me ensinou a ser o que eu sou hoje, a ser músico, a compor, tocar. Que me mostrou o poder transformador da música", diz Dado ao LABORATÓRIO POP. Os 25 anos do primeiro disco do grupo são motivo de comemoração para os dois, que hoje pouco ouvem sua própria obra, e pouco mudariam alguma coisa ali. E, para bem breve, espera-se mais recordações da banda, já que filmes como Somos tão jovens, de Antonio Carlos da Fontoura, que fala da adolescência de Renato Russo, estão para estrear. Com a novidade de trazer os filhos de Dado e Bonfá, Nicolau e João Pedro, interpretando os pais. "O roteiro ficou sensacional. Virou um filme de turma, de adolescente. O cara que fez o roteiro foi muito feliz e se estiver tudo na tela como está ali, vai ser ótimo", afirma Dado.
Os relançamentos em vinil do grupo de Brasília vieram na esteira de várias ações da fábrica Polysom. Antes apenas um brilho nos olhos do produtor e empresário João Augusto, dono do selo DeckDisc, passou a produzir em 2009, encarando a tarefa árdua de recolocar o vinil no mercado. E mesmo com poucas tiragens e preços caros (um disco pode chegar a R$ 80 nas lojas), marcaram seus gols com a série Clássicos em Vinil. Saiu de tudo: Nós vamos invadir sua praia (Ultraje A Rigor), África Brasil (Jorge BenJor), Aqui, ali, em qualquer lugar (Rita Lee), os dois do Secos & Molhados... Só não saiu Ventura, de Los Hermanos, vetado pela banda. Para 2011, prometem fabricar Lps e compactos para todos os artistas escalados para o Rock In Rio. E ainda fabricam os singles do selo Vigilante, da Deck, especializado em bandas novas.
Dois mil e dez foi um ano Beatle. Paul McCartney arrasou em São Paulo e em Porto Alegre, o que já bastaria para aplicar tal classificação. Ainda teve mais. A banda encarou, finalmente, o iTunes, passando a ter suas músicas vendidas no site. Bateu recordes de cara, a ponto do próprio Paul afirmar que o site ajudou a popularizar o grupo entre os jovens. Seu ex-parceiro John Lennon, por sua vez, comemoraria 70 anos de vida, eclipsados pela tristeza dos 30 anos de morte. A recompensa foi a intermitente presença de Yoko Ono nos jornais, falando de seu marido morto, e o relançamento de toda a obra do cantor de Imagine, na caixa John Lennon signature. Paul, por sua vez, ganhou uma versão turbinada de seu clássico Band on the run (1973), cujas canções (a faixa-título, Mr. Vanderblit, Jet, entre outras) levaram lágrimas aos olhos dos fãs nos shows brasileiros.
Não foi só isso: tido como café-com-leite por muita gente, Ringo Starr mostrou ao mundo que está vivo com o bom CD Y not e surpreendeu com boas composições, voz em forma e tom country-blues a perpassar suas novas músicas. E Dhani Harrison, filho de George, deixou a toca e aproveitou o exemplo paterno – responsável pelo projeto all stars Travelling Wilburys, lançado em 1989. Pôs na rua o bom grupo Fistful Of Mercy, no qual divide tarefas com Ben Harper e Joseph Arthur, cantor americano lançado por Peter Gabriel em seu selo Real World. O resultado é o EP As I call you down, disco predominantemente acústico.
O baú do ano que se passou não tem fim. E incluiu até um feliz retorno de uma época produtiva do rock nacional. O Planet Hemp subiu ao palco ao Armazém 2, na festa de 20 anos da MTV no Rio, de volta após mais de uma década de ausência. Ao lado do líder Marcelo D2, estavam Black Alien (vocal), B Negão (vocal), Rafael (guitarra), Formigão (baixo), Pedro Garcia (bateria) e Zé Gonzales (DJ). Faltou Bacalhau, que tocou bateria nos dois primeiros discos da banda e hoje segura as baquetas dos Autoramas. No Twitter, D2 manteve clima ameno ao falar dos ex-colegas e minimizou a ausência do ex-batera. "Tenho muito respeito pelos meus companheiros do Planet. Todos: equipe, banda, todos foram muito importantes... Infelizmente nem todos vão ao show", diz o rapper, aproveitando para também xingar muito no microblog. "Para os que realmente torcem pela gente, farei o máximo para que todos possam nos ver juntos de novo. É para essa cambada de péla-saco que a gente fez o Planet Hemp. Revolucionários de m... sentados na frente do computador. Por tudo o que nós passamos com o PH, e se vocês realmente entenderam o que a gente fez, merecemos um pouco de respeito".
As estantes de livros dos fãs de rock precisaram desocupar espaço para colocar pelo menos três volumes obrigatórios em 2010. 50 anos a mil contou a história da vida de Lobão (filtrado pela pesquisa e texto do jornalista Claudio Tognolli) com riqueza de detalhes e fatos que os próprios fãs nem deviam imaginar, além de suas posições, sempre firmes e bem embasadas, sobre o mercado fonográfico brasileiro. Vida, biografia de Keith Richards, escrita com a ajuda de David Fricke, detalha a convivência com Mick Jagger desde a infância, a trajetória dos Rolling Stones, os problemas com as drogas, as prisões, internações, casamentos e até as mulheres do amigo Jagger que choraram no ombro amigo (e só amigo, ressalte-se) do guitarrista. Já Eu sou Ozzy, escrito com Chris Ayres, é a autobiografia de Ozzy Osboune. E é uma surpresa. Além de relatar a trajetória sarjeteira do ex-Black Sabbath, tem timing de comédia, ao relatar os casos mais malucos da vida do cantor.
Foto: Reprodução
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