17.04.2010 | 12:58
ROCK ADULTO - E DESLOCADO
Ricardo Schott
Parecia uma espécie de anti-marketing indie. Mas não era. Em 2009, após alguns meses de trabalho em estúdio com o produtor americano Roy Cicalla (que trabalhou com artistas como Jimi Hendrix e John Lennon), a banda curitibana Terminal Guadalupe anunciou seu fim. O que parecia ser um lançamento redentor acabou se tornando um EP lançado apenas na internet, O tempo vai me perdoar, com a vida real batendo à porta dos músicos Dary Jr. (voz e letras), Allan Yokohama (guitarra, violão, teclado e vocal), Fabiano Ferronato (bateria) e Luciano Aires, o Marano (baixo e vocal) – em especial no caso do fundador Dary, pai recente. Considerado uma banda diferenciada do atual rock nacional – por buscar uma temática mais adulta para as letras, unindo influências que vão dos anos 60 aos 90 – o TG retorna readaptado à vida de seu fundador e de seus novos músicos (além de Dary, há Cláudio na guitarra, Diogo no baixo e Phill na bateria, além do tecladista Dartagnan para shows maiores). E a bordo de um EP ao vivo, O explorador de telhados , além do lançamento de todo o material já gravado pelo grupo para download gratuito. Em conversa com o LABORATÓRIO POP – cujo relançamento trouxe o show da banda, mostrando o repertório de seu novo disco – Dary destrincha essa nova fase e o que vinha acontecendo com o TG antes do fim e do recomeço.
Dary, fale um pouco sobre a volta da banda, com outra formação e um EP novo. Como a vida real está interferindo na vida do TG agora?
Os outros integrantes da formação anterior pediam mais tempo para a banda, enquanto eu queria me dedicar ao meu filho recém-nascido. A relação também estava desgastada, o que levou ao fim temporário. Eu voltei dentro dessa nova realidade, com ritmo menor de ensaios e shows. Meu filho fez dois anos, já dorme melhor, o que me permite, ao menos, voltar a viajar com o Terminal Guadalupe.
O que mudou com a nova formação em termos de som?
Os novos músicos são bem mais jovens, mas sabem das minhas responsabilidades e compreendem as limitações que delas decorrem, especialmente de tempo, horários. Tecnicamente, não devem nada a qualquer formação anterior do Terminal Guadalupe. Eu diria até que o time atual conseguiu equilibrar a relação entre performance e execução nos shows. Antes, era catártico. Essa correria acabou. Agora, tocamos com metrônomo sempre. Resultado: os timbres ficaram mais claros, os arranjos ganharam brilho e as letras passaram a ser ouvidas.
A opção por gravar ao vivo veio da pressa de registrar essa nova formação? Ou é para mostrar o som ao vivo mesmo?
O EP é produto de uma gravação ao vivo por questões práticas. Se a banda está bem ensaiada, o material fica pronto com menos tempo e dinheiro. Como a intenção era apresentar um registro da nova formação o quanto antes, deu certo.
Na formação anterior, antes do fim, vocês chegaram a registrar material em estúdio tendo como produtor o Roy Cicalla, que trabalhou com Jimi Hendrix e John Lennon. Mas parece que não deu muito certo. O que houve?
O clima entre nós não era dos melhores e eu tinha acabado de tomar uma rasteira profissional daquelas. As sessões, no entanto, foram boas. Mas sentimos falta de uma interferência maior. Tudo o que fazíamos era considerado bom, o que nos deixava desconfiados. O Roy também enfrentava um sério problema de saúde, o que atrasou bastante a finalização da mixagem. Para completar, a banda não ficava satisfeita com o material mixado que vinha por e-mail. Foi preciso colocar o Apollo 9 no circuito para fechar o trabalho mais ou menos de acordo com o que tínhamos planejado. No balanço, sentimos que gastamos dinheiro demais sem alcançar um resultado equivalente. Foi mais um banho de água fria para quem já andava desanimado. Havíamos criado expectativas muito altas. O tombo foi proporcional.
O Terminal fala nas letras sobre relacionamentos, política, mas tem uma tendência mais, digamos, adulta na hora de abordar esses temas, sem soar panfletário. Observando o rock nacional de hoje, não dá um desânimo ?
Penso no Terminal Guadalupe como a evolução natural do discurso das bandas dos anos 80, com o apuro instrumental da década de 90. O problema é que ficamos no limbo. O subgênero emocore tem dado as cartas no mercado há quase dez anos. Não me incomodo com o som, para ser sincero, mesmo porque as guitarras estão sempre comprimidas, assépticas. As bandas da geração atual tocam bem, sabem se equipar, mas as letras, de uma forma geral, são indigentes. Eu me sinto deslocado neste sentido. Isso me incomodava porque, em determinado momento, eu realmente acreditei que poderia ter sucesso com o Terminal Guadalupe. Hoje, com outras prioridades, é algo superado. Veja o caso do Beto Cupertino, do Violins. Para mim, o cantor e compositor mais completo e talentoso surgido no rock nacional desde Renato Russo. No entanto, íntegro que é, preserva uma aura de autenticidade e não faz concessões. E é feliz assim, não porque seja incapaz de produzir hits. Ele é capaz de compor inúmeros. Talvez esteja aí a principal diferença entre ele e Lucas, do Fresno, que coloca seu talento - que não é pouco, para desespero dos detratores - a serviço da música pop.
Porque o sucesso não veio? Aliás, como define sucesso?
Para mim, sucesso seria poder viver com dignidade, como consigo hoje graças à profissão que escolhi, o jornalismo. O sucesso não veio, e talvez não venha mesmo, por várias razões. Nosso som não se encaixa em um nicho de mercado, as letras não são de assimilação fácil, enfim. E tem ainda a minha personalidade, né, que dificulta as coisas. Falo o que penso, externo posições e, como o Lobão diz, refletir significa ser punido. Apesar disso, estou com ele, que usa a metáfora do carro em aceleração no gelo: sem atrito, nada sai do lugar.
E o mercado não está nada legal para quem externa posições, claro. Há política no meio das gravadoras, no meio independente. Esse fato dificulta vocês?
Essa conversa iria longe. Confesso que já não tenho mais saco para falar sobre as promessas de gravadoras e dos donos da cena independente que não suportam críticas. O fato é que o Terminal Guadalupe ficou no limbo, excluído do circuito. Ainda bem que conseguimos construir um nome, o que rende convites para abrir shows do Pouca Vogal, por exemplo, e tocar em festivais bacanas que não são ligados à Abrafin.
Quais são os planos daqui em diante? Um disco novo deve começar a ser gravado agora, não? E com esse tempo todo, não dá para, de certa forma, se sentir uma “lenda” do rock de Curitiba?
Por aqui, acho que me veem mais como "lêndea" do rock curitibano, de tanto que incomodo o senso comum. Enquanto não juntar dinheiro para gravar um bom disco em estúdio, vou seguir gravando shows com qualidade e soltar músicas inéditas incluídas nas apresentações. Sim, tenho material para um disco novo, mas não vou gravar de qualquer jeito. Até viabilizar uma gravação decente, me contento com os “bootlegs” oficiais.
FORMULE

18.05.2010 | 19:57
PARA EXORCIZAR
09.04.2010 | 14:57
Músicos curitibanos lembram de Ivo Rodrigues
29.04.2010 | 18:07
SURPRESA NO PALCO
19.02.2010 | 18:45
FESTA LABORATÓRIO POP
03.03.2010 | 12:26
FESTA LABORATÓRIO POP23.05.2012
Veja um vídeo de “The tomb”, que une mais uma vez Stallone e Schwarzenegger
Lady Gaga canta música exclusiva em “Os Simpsons” – veja a performance
Vazam detalhes de “Destiny”, novo projeto da Bungie em parceria com a Activision
Agridoce, projeto folk de Pitty e Martin, se apresenta no Rio nesta quinta (24)
Gerhard Brêda
Artista sueco se esconde em um pseudônimo para disparar melodias densas sufocadas por reverbs e delays
Rodney Brocanelli