13.09.2011 | 15:04
A BANDA MAIS VIVA DA CIDADE
Ricardo Schott
Em guerra com a gigante dos ingressos Ticketmaster, o Pearl Jam, lá pelos idos dos anos 90, se apresenta ao vivo. E, num monitor, é assistido, enquanto o cantor Eddie Vedder desanca a empresa, por ídolos do rock como Neil Young, Robert Plant e Jimmy Page, todos com um sorriso de satisfação nos lábios - como se pode ver lá pela metade de Pearl Jam twenty, documentário feito por Cameron Crowe, que conta a historia do grupo. Entre guitarras pesadas, aura clássica, estilo hippie-messiânico e uma quase-santidade digna do U2, fica clara a responsabilidade de banda vingadora e redentora que o Pearl Jam assumiu para si – e que aparece como subtexto em vários momentos do doc, previsto para chegar aos cinemas em 20 de setembro.
O rock de Seattle, que definiu a cara do começo dos anos 90, tem, contraditoriamente, o fracasso em seu DNA. O Nirvana era um banda dos anos 80 – formada em 1986 – que surgiu com cara punk-new wave, atrasada mais de dez anos para abraçar os estilos. E só estourou em 1991. O Soundgarden, antes da fama, se arrastava havia anos em selos independentes. Pilar indiscutível do grunge, mais do que as bandas que lhe deram fama, o Mudhoney não gerou muitos proventos para seus integrantes. A melhor banda da cidade, os Melvins, tem uma história parecida.
O Pearl Jam não fugiu à escrita: nasceu das cinzas de um grupo natimorto, o Mother Love Bone – cujo vocalista, Andrew Wood, morreu de overdose assim que a banda se lançou por uma grande gravadora. Baixista do PJ, Jeff Ament já havia se perguntado se realmente queria continuar fazendo música depois disso. Antes de gravar o primeiro disco, o Pearl Jam já havia arrumado uma pequena encrenca por causa de seu primeiro nome – Mookie Blaylock, referência a um jogador americano de basquete. Uma história que, em Pearl Jam Twenty, aparece coalhada de momentos de tristeza, indecisão e epifania – em meio à alegria pelo sucesso e pela sobrevivência (moeda rara no rock de Seattle), ao contato com os fãs, a discos clássicos como a trilogia Ten (1991), Vs (1993) e Vitalogy (1994) e à amizade que unia os músicos de Seattle no começo da carreira. Sem egos: Chris Cornell, cantor do Soundgarden, ajudou muito Eddie no começo da carreira e o convidou para cantar em Temple Of The Dog, projeto em homenagem a Andrew, que gerou o sucesso Hunger strike. E o Pearl Jam passou a tocar, com Vedder no vocal, Crown of thorns, do repertório do MLB.
Ainda que toque em temas espinhosos (como a própria visão dúbia do grupo em relação ao sucesso) Pearl Jam twenty não é uma invasão na história da própria banda: tudo é mecanicamente controlado. Ao contrário de Back and forth, que conta a trajetória dos Foo Fighters, as papagaiadas e mancadas feitas pelo PJ têm pouco espaço no doc. As mudanças de baterista, por exemplo, ganham um espaço (pequeno) no filme. Só quem pergunta sabe o que afinal aconteceu na época da tal luta antitruste da banda com o Ticketmaster – que hoje continua vendendo os tíquetes do grupo e não dá mostras de ter diminuído os preços dos ingressos, como o PJ queria.
O escarcéu feito pelas revistas americanas há alguns anos sobre a adolescência de Eddie Vedder – retratado como um playboy pegador, e chutando para longe o mito do cantor angustiado e triste – lógico, passa longe. Mantém-se o mito, em especial quando a banda toca hinos como Betterman para plateias imensas. E em momentos legais, como quando Crowe devolve a um emocionado Vedder a primeira demo que ele havia gravado com a banda.
Fugindo um pouco do normal em documentários, Pearl Jam twenty investe em um catatau de imagens coletadas por fãs e antigos videomakers que já trabalharam com o grupo – e mistura tudo em várias colagens. Se a intenção era emocionar o imenso público do grupo e mostrar o devido lugar do PJ entre os clássicos do rock, Cameron já o faria com uma mão nas costas. E não fez diferente.
FORMULE

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