TEMPO REAL

27.09.2011 | 16:47

BéLA TARR EXIBE “O CAVALO DE TURIM” EM NY E NO RIO

Carlos Augusto Brandão, de Nova York



 

O cavalo de Turim, de Béla Tarr – prêmio do Júri na última Berlinale – foi muito aplaudido nesta segunda (26), na sessão prévia para a imprensa da 49ª edição do Festival de Nova York (NYFF). O filme também é uma das atrações do Festival do Rio, que acontece de 6 a 18 de outubro.

 

Estranho como todos  os seus trabalhos, O cavalo de Turim começa com uma introdução de Tarr contando em off o que aconteceu em Turim, no dia 3 de janeiro de 1889, quando Friedrich Nietzsche saiu pela porta do número 6 da Via Carlo Albert. Não muito longe dele, o cocheiro de um tílburi está tentando controlar um cavalo teimoso, mas apesar de todo o seu esforço, o animal se recusa a andar e o cocheiro começa a  chicotear o animal. Nietzsche desce a escada, põe  fim a essa cena brutal e, aos prantos, abraça o pescoço do cavalo”.

 

Após esse intróito, o filme avança na narrativa traçando uma meticulosa descrição da vida do cocheiro, de sua filha e do seu cavalo. O novo trabalho de Tarr traz todas as marcas do seu estilo inimitável, incluindo as tomadas em preto e branco e sobretudo tons de cinza; atores que trabalham em pontos sempre acima ou abaixo do natural  e quase nenhum diálogo. 

 

Assim, como seus filmes anteriores – O homem de Londres e Satantango – Tarr aborda os dramas existenciais do homem moderno de forma única e fascinante.

 

Mais do que bíblico, o clima é apocalíptico. O poço de água seca, a luz se extingue, ciganos invadem a propriedade, pai e filha terminam imóveis, um tipo de imobilismo paralisa os personagens, sempre com os mesmos gestos repetidos com precisão.

 

No texto de apresentação, Tarr explica a origem do seu longo filme, que tem 146 minutos. “Tudo partiu de uma ideia que eu tenho há tempos, desde os anos 60 em Budapeste, quando li sobre Nietzsche”, conta, destacando que o cerne do filme é a vida. A intenção não foi dar uma solução ou indicar para onde as pessoas devem ir. Quis apenas mostrar como vejo  o mundo.  O fato de que tudo na vida passa e a impossibilidade de uma resposta para isso. A velha questão é sobre o que estamos fazendo aqui”.

 

“Mas  não se pode expressar a alma sem dor. Acredito profundamente que a audiência identifica a questão da dor no filme, o mundo está repleto dela. Mas para fazer o filme, nós também sofremos, já que o ponto principal é a vida”.

 

Tarr trabalha sempre com a mesma equipe que inclui, entre outros, a codiretora Agnes Hranitzky, o fotógrafo Fred Kelemen e o compositor Mihály. “Já estive pensando muito nas razões de trabalharmos há tantos anos juntos. Acho que é porque não precisamos discutir, debater pontos das filmagens; enfim, é pegar a câmera e filmar”, resume. 

 

O veterano cineasta, que ganhou o Prêmio do Júri em Berlim, se sente confortável integrando a seleção do NYFF, conhecido por não ter a competitivdade como uma de suas características, já que não concede premiações.

 

“É difícil competir em trabalhos de arte. É como comparar Proust com Dostoievski. E no próximo festival, esses prêmios estarão esquecidos. Eu acho bom ir a festivais sem precisar combater com nenhum outro cineasta”, ressalta.

 

O cavalo de Turim, como tem declarado o diretor, pode ser o último que realiza. Já há algum tempo, ele vem anunciando sua aposentadoria e parece que agora é definitivo.

 

Foto: Divulgação

Leia outras notícias em tempo real

FORMULE