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28.04.2010 | 08:01

"VIDEOCRACY", SOBRE PAPEL DEGENERATIVO DAS TVS DE BERLUSCONI, PASSA NO INDIELISBOA

Carlos A. Brandão



A mostra Observatório –  uma das paralelas mais interessantes do IndieLisboa destinada a obras essenciais do cinema independente contemporâneo de diretores consagrados – lotou o Cine São Jorge com a sessão de  Napoli, Napoli, Napoli, novo filme do irreverente Abel Ferrara, que havia estreado no último festival de Veneza. O filme não é apenas o retrato de uma cidade – no caso, Nápoles – mas é também um olhar profundo sobre seus habitantes e a sua cultura.

A partir de entrevistas com um grupo de mulheres na prisão de Pozzuoli, e impressionado com a dureza dos seus depoimentos, Ferrara idealizou três episódios ficcionais, escritos por membros da associação juvenil anti-crime Figli del Bronx, jovens outrora ligados ao submundo do crime. As histórias estão interligadas e relatam as condições na prisão, a realidade das gangues, a vida das famílias e o papel das mulheres, vítimas do poder e da violência dos homens.

Paralelamente, através de entrevistas de pessoas comuns e personalidades aparentemente escolhidas aleatoriamente – intelectuais, juízes, artistas e políticos – Ferrara capta as dificuldades e as expectativas da burguesia e do povo de uma cidade conservadora e autodestrutiva. O filme inclui ainda jovens atores que desempenham o seu próprio papel.

 No texto de apresentação do filme, Ferrara diz que embora seja americano sua ligação com a cidade vem de longe.

     “Eu cresci num bairro tradicional napolitano basicamente criado pelo meu avô”, relembra.

     Não é a primeira vez em anos recentes que um filme traça um lado sombrio da bela cidade da Campânia. Em 2008, o italiano Matteo Garrone  realizou Gomorra,  uma fiel transposição para as telas do best-seller homônimo de Roberto Saviano sobre a máfia napolitana, conhecida também como Camorra, única proveniente do meio urbano e considerada uma das organizações mais violentas que existe.

      Ferrara – que também havia realizado um filme sobre a máfia, o ótimo Os Chefões – diz que Napoli, Napoli, Napoli  tem uma característica universal que ultrapassa as características especificas  de uma cidade:

      “Este filme conta a história de Nápoles, mas podia ser a de Nova York ou Detroit, pelo paralelismo com o panorama aterrador das paisagens urbanas do século 21”, afirma o diretor  de 59 anos.  

    Além do filme de Ferrara, a Itália também está na berlinda nas telas do IndieLisboa, através do documentário Videocracy, exibido na Pulsar do Mundo, mostra destinada – como os organizadores do festival definem – ao cinema de intervenção. Dirigido pelo cineasta italiano naturalizado sueco Eric  Gandini, o filme denuncia o papel degenerativo que as estações de televisão lideradas por Silvio Berlusconi tiveram para a sociedade italiana, através da influência no entretenimento televisivo e no domínio da imagem que tem mantido ao longo de três décadas. 

     A televisão pública italiana (RAI) proibiu a transmissão dos 30 segundos da campanha promocional  do filme.Os responsáveis pela distribuição dizem que a RAI classificou o vídeo como mensagem política e não como um filme e por isso se recusou a transmiti-lo, alegando que o documentário xibe pontos ofensivos à honra e à reputação pessoal do primeiro-ministro.

     “É um filme sobre o tempo presente e fala sobre como a Itália se transformou depois de todos estes anos. Claro que Berlusconi está na história. Mas é muito mais um filme sobre a cultura italiana”, rebateu Gandini numa entrevista recente em Estocolmo. 

     O diretor, que hoje vive na Suécia, mas cresceu na Itália de Berlusconi, diz que os escândalos de corrupção sobre os quais lê todos os dias são pequenos quando comparados com este que é um delito muito maior porque é cultural.

     “E é um crime que os responsáveis nunca serão julgados, porque não é ilegal, não há nenhuma lei contra isso”, atesta.

     O doc de Gandini não faz perguntas difíceis aos entrevistados, apenas os filma, uma opção que vem de encontro ao pensamento do diretor sobre o cinema. 

     “O filme não é um veículo de números ou fatos, é um veículo de emoções”, define.  

Veja o trailer de Videocracy.


 
 

 

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