A CURA DA COMÉDIA | LABORATÓRIO POP


TV

13.07.2010 | 10:10

A CURA DA COMÉDIA

Mario Marques



Que atire agora o roteiro pela janela o humorista que já tentou, tentou e não conseguiu escrever um seriado que preste. S.O.S. Emergência, que pegou a tarefa ingrata de suceder o BBB de Marcelo Dourado no fim das noites de domingo, na Globo, vem atravessando os meses cada vez melhor – e com seus escritores orgulhosamente felizes. Os bastidores do ficcional e divertidíssimo hospital  Isaac Rosenberg, descritos pelo autor Daniel Adjafre, alimentado pela dinâmica de teatro, são ouro fino no pobre menu televisivo. Entre as novidades no terreno movediço, o irregular, pálido, exagerado e desidratado Separação, de Fernanda Young e Alexandre Machado, às sextas-feiras, sublinham ainda mais os méritos de Adjafre, amparado pelo emergente Marcius Melhem. A dupla tem estofo junta. Já atuou no bom Casos e  acasos, de 2008.


Dirigido por Mauro Mendonça Filho, o seriado tem um elenco que faria Dunga ter pensado melhor ao escalar sua seleção para a Copa. Estão lá os craques Ney Latorraca (Dr. Solano), Marisa Orth (Dra. Michele), Maria Clara Gueiros (Dra. Veruska), Bruno Garcia (Dr. Wando), Cláudio Mendes (Dr. Stênio), Hugo Possolo (Dr. Brenon), Fábio Lago (enfermeiro Anderson) e Fernanda de Freitas (assistente social Evelin). Junta ou separada, essa turma, coadjuvada por Pedro Henrique Monteiro (residente Diego), Renata Tobelem (residente Cissa) e Mariana Bassoul (recepcionista Rosário), parece fazer comédia ao vivo. O tempo do humor é perfeito, as tiradas soam originais e os desfechos, inusitados.


Há claramente um grande esforço em se desengessar do formatinho da Globo, o de sempre para sempre. Tanto que, a cada semana, a abertura gráfica do seriado muda, surpreendendo a quem espera o padrão da emissora da repetição. Quando se começa assim, com o cajado da inovação na mão, a tendência é subir uma escada na grade. Se acertar, vai longe. E acertou.


Que Marisa Orth e Ney Latorraca fossem bater escanteio e cabecear, tal qual o uruguaio Forlan, craque da Copa, já se esperava. As surpresas vieram de nomes como Bruno Garcia, o Dr Wando. Bonachão, com charme do médico esperto e vaidoso, ele anda pelos corredores do hospital brilhando sozinho, carregando todo mundo nas costas.  Seus textos são certeiros, com diálogos apontados para um humor moderno à la David Letterman, caras, bocas e cordão brega apontando para manejos tortuosos, ácidos e imediatos. Fernanda de Freitas, a Evelin, assistente social nerd, caipira e insegura, é o charme do seriado. Mesmo nos últimos episódios com menos exposição, é peça fundamental na trama, ponte entre as sequências desastrosas no hospital.


As desventuras vão desde uma eleição da musa do hospital a um exame de próstata, cruzando com o aniversário do diretor (Dr Solano), Latorraca, este no ponto como o comandante sem rumo dos desmandos do hospital. As câmeras perpassam todos os setores, da emergência à maternidade, estabelecendo uma relação íntima entre o espectador - que como poucos conhece a escuridão dos hospitais públicos - e as estrelas do seriado, que trazem a bordo da maca o mundo lá fora para a mesa cirúrgica do humor.


Desnudam-se assim, de forma pouco ortodoxa, os vexames e humilhações aos quais os pacientes são submetidos no dia a dia da rede pública. O que era para ser um tema incômodo, que aqui não é escondido, ainda que se tratando de um hospital particular, vira um manancial de boas piadas, de ligações fortes com a boa safra setentista de Jô Soares e guindado ao futuro. É nessa conjunção de épocas que se situa o S.O.S. Emergência da Globo.


Ao fazer do clichê lixo cirúrgico, o seriado dominical da Globo desponta 2010 como o grande programa de humor da TV. Exemplo que, mesmo guardando as diferenças estéticas, conceituais e de intenções, faz de outras recentes tentativas de humor como o chatíssimo CQC, da Band, envergonhar-se de seu festival de piadas prontas, descabidas e autoreferentes. Ao ignorar tudo o que se faz na TV em todos os seus módulos, o S.O.S. Emergência trata de um mal que acomete a produção de risadas nacional: o medo de arriscar.


Veja trecho do episódio Dos males, a menor:

 

 

 

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FORMULE

Postado Por CLAUDIO MATTOS

13.07.2010 | 11:02

Muito bem sacado! é demais essa paradaaa!

Postado Por IVONE

24.07.2010 | 09:15

Assisto o seriado todos os domingos e concordo com os seus comentários. O seriado é muito legal, e diferente, a começar da abertura que a cada semana eu fico esperando para ver de que forma eles apresentarão os nomes dos atores e equipe. Muito criativo. O ator Bruno Garcia (Dr. Wando) está excelente, assim como o Fábio Lago e a Maria Clara Gueiros.