26.07.2010 | 14:35
FALTA O TOQUE DO MESTRE
Juliana d'Arêde
Adaptar qualquer obra de Stephen King, o mestre do terror, não é mole, não. É claro que podemos ser surpreendidos com clássicos como Carrie, a estranha, O iluminado e À espera de um milagre, mas é sempre melhor deixar a história com o seu próprio autor, sem se aventurar por derivados ou versões genéricas. Quando Haven foi anunciada pelo canal Syfy como uma das estreias da summer season (a chamada temporada de verão para a TV americana), havia certo receio. Afinal, uma série de suspense e acontecimentos paranormais baseada numa obra de um dos gênios do gênero seria produzida por um canal especialista no assunto.
Haven já começa com uma falha notória e incômoda: os fracos efeitos especiais. Tudo bem que não estamos falando de Hollywood, mas há muito as séries deixaram de correr atrás das produções cinematográficas e passaram a se aprimorar em suas produções. Algumas, inclusive, são consideradas obras-primas (HBO segue na liderança nesse quesito). Orçamento também não pode ser usado como desculpa, porque estamos falando de Stephen King. O cara é, simplesmente, um dos "pais" dessas coisas de fumaças, neblinas, habilidades especiais e situações inexplicáveis. Portanto, se é para fazer uma série baseada em uma de suas obras, é preciso ter a consciência da qualidade do conteúdo que será adaptado. No decorrer do primeiro capítulo, algumas mudanças climáticas abruptas até são aceitáveis, mas é só os efeitos começarem a melhorar de um lado para as atuações de alguns atores estragarem de outro.
Quando a agente Audrey Parker (Emily Rose) é designada para capturar um criminoso que havia fugido da prisão e, ao que tudo indicava, seguia em direção à sua cidade natal, Haven, ela mal poderia imaginar que aquela pequena comunidade pudesse esconder tantos segredos. Ao chegar ao lugar, seu carro quase cai em um precipício (depois de a estrada começar a se rachar de maneira totalmente vergonhosa em termos visuais, vale destacar). Até que um dos policiais da cidade, Nathan Wuorcos (Lucas Bryant), chega, claro, exatamente na hora para resgatá-la. A química entre Rose e Bryant certamente não é das piores da TV, mas há uma diferença exorbitante em termos de interpretação na dupla. Enquanto Rose leva com bastante naturalidade a sua agente Parker, Bryant permanece apagado, apático, quase uma sombra.
No fim do episódio, descobrimos que há uma razão misteriosa para o chefe de Parker tê-la mandado para Haven. Acabou sendo um bom gancho para um piloto meio frustrante. O caso foi resolvido com uma rapidez recorde e os personagens coadjuvantes poderiam muito bem ter passado despercebidos para evitar atuações constrangedoras. O fato é que a obra de King é envolvente, instigante e surpreendente, coisa que Haven, a princípio, não foi. Claro que ainda há, pelo menos, mais 10 episódios para contornar a situação, mas o problema é se a série resolver seguir pela linha de casos específicos com um arco em volta. Poucos programas conseguem levar sua audiência dessa forma. O roteiro precisa estar bem definido e a trama necessita de personagens carismáticos. A primeira impressão de Haven não condiz com o legado de King, mas alguns momentos do piloto ainda permitem certa expectativa para o que vem a seguir. Assim esperamos e o mestre, também.
FORMULE

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