O resgate de Nova Orleans | LABORATÓRIO POP


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24.08.2010 | 15:27

O RESGATE DE NOVA ORLEANS

Juliana d'Arêde



Como sobreviver em meio a um cenário de total destruição e abandono? Treme, nova minissérie da HBO com estreia prevista para este sábado (28), às 22h50, traz aos espectadores novamente a questão de Nova Orleans, nos Estados Unidos, devastada após a passagem do furacão Katrina, em 2005.  Criada por David Simon (The Wire e Generation Kill) e por Eric Overmeyer (produtor e roteirista de séries como Lei e Ordem e The Wire), a série foi renovada para uma segunda temporada com apenas dois episódios exibidos. Precipitação do canal? Muito pelo contrário. Reconhecimento do brilhante trabalho em torno de uma produção extremamente sensível, delicada e séria.

 

A trama acompanha a vida de um grupo de moradores de Nova Orleans, que vive no distrito de Treme e luta para reconstruir suas vidas e a cidade após a catástrofe natural. O piloto traz os habitantes voltando a fazer a tradicional parada pela cidade, três meses depois da passagem do furacão. Quando muitos pensavam que o luto, o desespero e a tristeza tomariam conta da comunidade, a música e a vontade de recomeçar de seus moradores falaram mais alto.

 

Combinando situações de melancolia, revolta e depressão com as tradições do povo de Nova Orleans, Treme faz um balanço direto e objetivo das vidas dessas pessoas, sem deixar de abordar, de maneira excepcional, questões sociais, políticas e culturais. O governo americano, por exemplo, é colocado contra a parede no roteiro, acusado de abandonar a população da cidade e de ser irresponsável por não tomar medidas mais drásticas que poderiam ter evitado a tragédia maior.

 

Como toda produção da HBO, o elenco de Treme é outro bônus positivo. O talento dos veteranos Melissa Leo, que interpreta a incansável advogada Toni Bernette, Clarke Peters, no emocionante papel de Albert Lambreaux, e de John Goodman, que rouba a cena como o revoltado Creighton Bernette, é o casamento perfeito com a vivacidade e naturalidade das atuações de Steve Zahn (que mostra na série todo o seu potencial dramático, com um desempenho completamente sóbrio e consistente), Rob Brown, das fortes Kim Dickens e Khandi Alexander e de Wendell Pierce, que interpreta o trombonista Antoine Batiste.

 

Tudo em Treme leva à emoção, à reflexão e ao questionamento. A paixão e o comprometimento dos moradores com o distrito e a cidade é algo comovente e, ao mesmo tempo, doloroso de se ver, devido às péssimas condições a que foram deixados. Difícil escolher a melhor cena, o melhor diálogo ou a melhor atuação no piloto, quando toda a produção faz o espectador viajar através da cultura de Nova Orleans. E o que dizer da trilha sonora? É uma ode ao melhor do Jazz e do Soul, que ajuda a ditar o ritmo cadenciado da série.

 

Com uma fotografia espetacular que remete à Nova Orleans atual, a série traz também imagens verdadeiras da cidade, dando ao projeto um ar ainda mais realista. Depois das excelentes Família Soprano e Band of brothers (só para citar algumas), a HBO presenteia os espectadores com uma produção intimista e avassaladora, que mostra o poder de superação de um povo envolvido por uma realidade cruel. Resumindo, Treme é uma obra-prima.

 


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