Os irmãos Scott na Idade Média | LABORATÓRIO POP


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05.08.2010 | 16:28

OS IRMãOS SCOTT NA IDADE MéDIA

Juliana d'Arêde



Intrigas, romance, drama, traição, Igreja. Estão aí todos os ingredientes para um bom drama épico. Nada diferente do que somos apresentados em Os pilares da Terra, minissérie em oito capítulos adaptada da obra literária homônima escrita por Ken Follett, publicada em 1989. 

Exibida pelo canal Starz, Os pilares da Terra é arrebatadora a seu modo. As ambições políticas, eclesiásticas e sociais dos personagens de Follett foram sistematicamente incorporadas pelo elenco seguro e talentoso. A violência excessiva, como em toda boa história passada na Idade Média, é complementada pelo caráter emocional das atitudes dos indivíduos da obra, estimulando sentimentos controversos e questionadores nos espectadores, totalmente envolvidos pelo roteiro bem costurado por John Pielmeier (que também atua na produção). É preciso lembrar que a série é uma adaptação, o que, portanto, não significa seguir à risca a obra original.

Inglaterra, século 12. O navio que levava a bordo William, o único herdeiro de Henrique I, naufraga sem sobreviventes. Como o rei já estava em idade avançada, inicia-se a luta pelo trono inglês conhecida como Anarquia. A partir daí, somos apresentados a personagens históricos, cruéis e carismáticos. Quando Stephan (Tony Curran), o sobrinho do monarca, é coroado, Matilda (Alison Pill), a princesa, e alguns amigos leais de seu pai se voltam contra ele. No meio da briga familiar, Follett nos oferece uma segunda história paralela, que consiste na construção da primeira catedral gótica da Inglaterra, a fictícia Kingsbridge Cathedral.

Com direção de Sergio Mimica-Gezzan (que comandou alguns episódios de Battlestar galáctica), a série tem os irmãos Ridley e Tony Scott na produção. A belíssima fotografia nos remete simultaneamente aos tempos áureos da nobreza e à miséria e falta de perspectiva da plebe. O time escalado para dar vida às criações do autor, com um sincero Donald Sutherland (como o Conde Bartholomew, melhor amigo do rei) e o honesto Tom, O Construtor (interpretado por um Rufus Sewell completamente despido da já corriqueira imagem mesquinha da maioria de seus personagens – por sinal, históricos) conduz seus papéis magistralmente, nos emocionando, chocando e, até mesmo, praguejando (ninguém é de ferro).

Destaque para o núcleo do Clero, muitas vezes generalizado e outras, caricato, em determinadas produções. Gezzan não se intimida em lidar com as ambiguidades e o cinismo de algumas figuras religiosas, proporcionando alguns dos diálogos mais simbólicos e repulsivos da trama. Tudo trabalhado com muita seriedade pelos brilhantes Ian McShane, o padre Waleran que ambiciona virar bispo acima de tudo (e de todos, é importante ressaltar), e Matthew Macfadyen (para quem não lembra, o romântico Mr. Darcy de Orgulho e preconceito), que vive o ingênuo, porém seguro (até o momento) de seus ideais, padre Philip. Ambos retratam o paradoxo religioso de uma época em que a vontade de Deus se sobrepunha , às vezes, aos direitos do homem.

Aguardada com muita expectativa pelo canal (que não é lá uma HBO), Os pilares da Terra não decepciona (pelo menos por enquanto) quem espera um entretenimento com uma boa dose de história, sangue e lágrimas. Com a segunda temporada já garantida, também adaptada do que é considerado o segundo volume da saga criada por Follett, intitulado World without end, fica a esperança de que os produtores saibam unir continuamente o roteiro com os livros, apesar das modificações inevitáveis. À primeira vista, a qualidade e o potencial do programa são indiscutíveis e para nobre nenhum colocar defeito.

 

 

 

Foto: Divulgação

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