"Elementar, minha cara BBC" | LABORATÓRIO POP


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20.08.2010 | 14:05

"ELEMENTAR, MINHA CARA BBC"

Juliana d'Arêde



Qualquer adaptação da obra brilhante de Sir Arthur Conan Doyle é uma tarefa árdua de ser realizada. Muitos tentaram. Alguns foram bem-sucedidos, outros nem tanto. Então a BBC resolve inovar e desenvolver uma versão moderna de Sherlock Holmes. O sinal de alerta é ligado no nível máximo. Por maior emissora que seja e por mais qualidade que suas produções possam apresentar, trazer um personagem rico e complexo como Holmes para o mundo contemporâneo é um tiro no escuro. E quer saber? A BBC acertou em cheio o alvo. A série é um deleite para os seguidores da mente mais dinâmica e inteligente dos contos policiais e conquista uma nova geração de admiradores da perspicácia de Holmes.

 

Dividida em três partes – de noventa minutos cada -, a minissérie consegue conciliar elementos fundamentais da saga original (como o famoso endereço de Holmes, Rua Baker Street, 221B, além dos vícios, características e nomes dos personagens) com a dinâmica do século 21. Stefen Moffat (Doctor Who) é o responsável por essa brilhante representação do detetive e seu fiel escudeiro – Dr. Watson. Antes de tudo,  é preciso destacar o principal trunfo de Sherlock Holmes da BBC, sem o qual, certamente, o programa estaria fadado ao fracasso: as atuações excepcionais de seus dois protagonistas,  Benedict Cumberbatch e Martin Freeman.

 

Se o nome de Sherlock Holmes não for o bastante para atrair a sua atenção às telas, faça um favor a si mesmo e comece a assistir por esses nomes citados acima. Cumberbatch pode não ser fisicamente o ideário coletivo de Holmes, mas psicologicamente, figuradamente- e mais uma gama de outros advérbios  -,  é arrebatador.  Dominando com maestria os diálogos intensos e coerentes de Moffat, o ator transmite toda a genialidade e funcionalidade do caráter simplista, porém austero, do personagem. Ele criou uma combinação perfeita entre um Holmes pouco mais conservador com o extremamente sarcástico de Robert Downey Jr., na adaptação cinematográfica de Guy Ritchie. Além disso, é carismático por natureza, mesmo com toda a formalidade britânica.

 

Já Martin Freeman é o primeiro a ser apresentado para o público no episódio piloto, como um Dr. Watson veterano da guerra do Afeganistão. Ele sofre de trauma após retornar do conflito, o que lhe deixa sequelas psicológicas como a mão trêmula e uma perna manca que precisa da ajuda de uma bengala (olá, House). Mas a fragilidade demonstrada inicialmente logo dá lugar a um médico destemido que, na verdade, tem um vício e precisa deste para se recuperar e seguir adiante: adrenalina. É o bastante para o Dr. Watson ganhar de vez a simpatia do público. Freeman é a cereja do bolo de Sherlock Holmes,  traduzindo dramaticamente a inocência e humanidade do médico.  A química entre os atores transcende as barreiras da ficção. É quase como se estivéssemos convivendo com os personagens naquele momento, tamanha naturalidade e compatibilidade.  Na série, vemos uma dupla que se completa integralmente, e o resultado é uma sequência de cenas de primeira categoria em todos os sentidos. Destaque para os momentos em que Watson fica encantado diante da inteligência inquestionável de Holmes. Simplesmente impagável.

 

O título do primeiro episódio, A study in Pink (Um estudo em rosa, em tradução livre), refere-se à obra responsável por apresentar Sherlock Holmes aos leitores, Um estudo em vermelho. Essa é apenas uma das muitas ótimas sacadas da produção. O programa ainda incita o espectador a participar da investigação com Holmes no decorrer da série, acompanhando seu raciocínio praticamente em “tempo real”. Isso porque, à medida que o detetive formula suas pistas e constrói uma lógica, os pensamentos são inseridos na parte lateral da tela, o que claro, é uma vantagem exclusiva de quem está assistindo. Passado o susto com a hipótese – agora bem remota – de desperdiçar uma obra consagrada com a mania da TV (e também do cinema) de modernizar os clássicos, fica a certeza de que, assim como seu personagem, Sir Arthur Conan Doyle é um gênio, e que a BBC, tal como Dr. Watson, é uma parceira eficiente.

 

 

Foto: Divulgação

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